sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Contemplação

Às vezes olho para o nada, simplesmente por olhar
Às vezes, no infinito, tento buscar algo a mais
Busco o que me surpreenda
Busco uma faísca, uma repentina inspiração







De noite olho a lua
De noite olho as estrelas e o misterioso manto azul
E sinto a brisa suave em meu rosto
E tento entender como, por que... mas não consigo

Olho então para o lado, e vejo você
Olho então em seus olhos, e de repente o azul do céu não parece mais tão azul
Percebo que toda a inspiração está ali
Percebo que não há o que entender, apenas o que contemplar






segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Limões

Foi assim que ele me convenceu a vender limões.
Quer dizer: distribuí-los.
- O que? Você quer mesmo...?
- É claro que sim!
- Mas... de onde tirou essa ideia?
- É uma experiência sociológica, vamos, vai ser legal.
Eu dei risada, pensei um pouco.
É, talvez fosse legal. Talvez.
- O que você quer provar?
- Quem disse que quero provar algo? Só quero ver a reação das pessoas. Vai ser divertido.
Parecia interessante. Era o tipo de coisa que todo mundo têm vontade de fazer, mas quase ninguém faz.
Eu, inclusive.
Ah, essas coisas loucas! Adoro as coisas loucas, sempre adorei. E estava na hora de um ato um pouco desajustado, fazia tempo que eu não fazia nada desajustado.
Como daquela vez em que eu subi em uma fonte no meio de uma praça e gritei que era dona do mundo para uma avenida de carros insensíveis.
Bom, aquilo já fazia um bom tempo. Já era hora de construir novas lembranças sobre atos malucos.
- Então... de quantos limões vamos precisar?
- Uns dez.
- Está certo então.
- E vamos precisar de papel e caneta.
- Pra quê? Vamos escrever "vende-se limões"?
- Não, vamos escrever "VIDA" e colar em nossas camisetas.
Só naquele momento eu realmente percebi o que ele queria fazer. E aí eu entendi porquê ia ser tão legal.
E lá fomos nós vender limões.

"Vender não!" ele dizia bravo. "Vamos doar limões". Mas não adiantava, eu estava com o verbo "vender" na cabeça. Por quê? Porque algum dia li em algum lugar algo sobre "vender sonhos", um ato sem remuneração mas que se autodenominava como uma venda, e era exatamente o que estávamos fazendo. O limão era uma metáfora para o sonho, ou, melhor se encaixando no ditado: para a oportunidade.
E acabamos com os dez limões em dez minutos.
Certo então, tínhamos terminado. Então nos sentamos e ficamos observando o céu, lembrando daqueles estranhos personagens que tinham aceitado nosso estranho presente. Alguma expressão triste que de repente se transformou num sorriso, alguém que queria fazer uma caipirinha, alguém que realmente não esperava por isso e que, chegando em casa com certeza diria a alguém: "a vida hoje me deu um limão", "onde?", "no semáforo".
- Sabe o que eu acho? - perguntei.
- O que?
- Que nós mesmos somos limões.
- Ah é?
- É. Tenho certeza, eu devo ser um limão na sua vida, não?
- Depende do ponto de vista.
- Pois é.
- Eu sou um na sua?
- Depende do ponto de vista.
Ele sorriu com minha resposta.
- Bem - concluiu. - De qualquer forma, o bom de tudo isso é que podemos escolher o melhor modo de usar cada limão que recebemos.
Sorri.
- Também acho. E por enquanto, acho que estou sabendo aproveitar muito bem o meu.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Para Casa

- Você... não está entendendo nada, não é mesmo?
- O que... quem é você?
Na verdade o garoto deveria ter perguntado "onde está você?", mas demorou um pouco para se dar conta de que não podia ver quem (ou o que) falava com ele.
- Acho que você não quer saber, acredite. Pelo menos não por enquanto.
O garoto notou que era uma voz estranha. Mais áspera e rouco que o normal. Uma voz... não exatamente humana.
Silêncio. Ele tinha medo de perguntar qualquer coisa.
Estava escuro, e ele não conseguia saber se estava deitado, sentado ou de pé, de olhos abertos ou fechados. Quando percebeu que suas costas doíam achou que devia estar deitado, e então fez um esforço para se sentar.
Tateou.
Aquilo podia ser uma rocha, mas o garoto não sabia dizer. Ele nunca tinha tocado em uma rocha de verdade antes.
Havia um som estranho e constante... um rio? Ou talvez algo menor como um córrego. Ele também não sabia dizer, nunca tinha ouvido aquilo antes, mas lembrava o correr da água da chuva nas sarjetas sujas da rua sobre o porão em que ele morava.
- Então... Tom. Quer me   falar sobre sua vida?
Como aquela voz podia saber o seu nome? O garoto quis responder a ela, mas sua garganta estava entalada, a voz não saía. Tom abriu a boca, o som não veio. Fez algum esforço a mais... e conseguiu produzir algum barulho.
- Co... co... como sabe o meu nome?
Silêncio.
- Quem é você? Que lugar é esse?!
Tom começava a se desesperar. Não sabia o que fazia ali, como tinha ido parar ali.
- Não quer mesmo me contar sua história, Tommy?
- Não me chame assim!
O garoto não suportava que o chamassem daquele jeito. Apenas uma pessoa o chamava daquele jeito, e ele não queria lembrar dela.
- Se sabe o meu nome, com certeza sabe minha vida.
- Pode apostar que sim. Mas mesmo assim, não faço ideia sobre o que se passa aí dentro.
A voz rouca pareceu estar mais próxima dessa vez, mas Tom não tinha ouvido passos. Estava acostumado com o escuro, não tinha medo das sombras. Mas também não simpatizava com vozes desconhecidas que se aproximavam sem que ele percebesse.
- Diga-me, Tom. Como se sentiu todos esses anos?
O garoto chegava à conclusão de que se não contasse não poderia se livrar daquela situação. A sensação de que estava preso numa caverna escura e úmida (não que ele realmente soubesse como era uma caverna por dentro ou por fora) causava nele certa ânsia, nervosismo. Ele queria sair dali.
- O que acontece se eu te contar?
- Se me contar eu te mostro como sair daqui.
Era uma oferta tentadora, mas Tom ainda não tinha certeza. Pensou bem, viu suas opções.
Chegou à conclusão de que não eram muitas.
- Eu... eu vivia com meus pais, sabe? Numa casa de campo. Havia muita mata e animais... e cavernas.
- Já esteve em uma caverna?
- Não... nunca. Meu pai dizia que um dia me levaria para visitar uma. Mas eu... ele...
- Ele morreu.
Silêncio.
- É. Ele morreu.
Silêncio.
Tom não sabia se queria continuar. De repente sentiu um doloroso nó na garganta, e então percebeu que algo dentro dele queria sair. Como se agora ele fosse chorar tudo o que nunca tinha chorado antes.
- Não vai continuar? E sua mãe.
- Você sabe.
Essa resposta saiu quase muda, com uma voz meio esganiçada e meio engasgada, cheia de revolta, ódio. Porque tinha alguém se metendo em sua vida logo agora? Porque tinham que vir desenterrar tudo aquilo que estava tão bem guardado, escondido, abafado e soterrado no fundo de sua alma?
- Quero ouvir de você.
Tom suspirou, sentiu os olhos lacrimejarem.
- Ela morreu antes do papai. Na verdade... não sei, acho que tinha algo a ver com uma doença transmitida por algum bicho... não tenho certeza, eu era muito criança. E aí... bem, meu pai ficou desolado. Mesmo assim me ensinou a ler, a escola era muito longe para ele me levar até lá. E depois... bom, na verdade ele decidiu se mudar para a cidade.
- A é? Por que?
- Aquela casa lembrava muito a minha mãe... acho que meu pai não suportou ficar ali sem ter ela por perto. Então fomos para a cidade.
- E como era lá?
- Não sei.
- Como assim não sabe?
- Eu quase nunca saí de casa. Assim que nos mudamos eu e meu pai descobrimos o porão. Tinha um monte de coisas legais lá, coisas do antigo morador. E... um montão de livros, uma luminária e um monte de lâmpadas reserva.
- Então... você passou sua vida inteira no porão.
Silêncio.
Não era uma pergunta. E a afirmação era corretíssima, Tom sabia que estava.
- Não eram esses os planos... não era pra ser assim. É que... estava no meio das férias e eu ia começar as aulas em pouco tempo. A casa era gigantesca, não sei porque meu pai comprou-a só pra nós dois. Acho que ele queria... sei lá. Talvez ele quisesse se afogar naquele espaço para ver se esquecia a minha mãe. Ou para ter a sensação de que ela podia estar em qualquer um dos quartos... e pudesse aparecer a qualquer momento.
Silêncio. Dessa vez mais deprimido que os anteriores. Aquele som constante de água correndo martelando na cabeça do menino Tom.
- E vocês se mudaram... sem você conhecer uma caverna?
- Pois é. Papai me prometeu que me levaria em uma nas próximas férias, mas...
- Não houve próximas férias.
- Pois é.
- E... como foi a morte dele?
A voz parecia ter se aproximado um pouco mais. Tom sentiu um arrepio percorrendo-lhe toda a espinha.
- Como eu disse, faltavam poucas semana para o começo das minhas aulas, então eu queria explorar aquela casa gigantesca. Era bem maior que a casa de campo em que a gente vivia... e a parte mais legal era o porão. Eu e papai fizemos dele o nosso esconderijo secreto, um quartel general. Cada dia a gente procurava um livro novo e ele me ajudava a ler.
- E... é verdade que você nunca viu uma rocha antes?
- O máximo que já vi foram pedras pequenas, mas nunca uma rocha dessas de caverna. Eu sempre quis visitar uma caverna...
- Porque seu pai nunca te levou em uma?
- Quando a gente morava no campo mamãe tinha medo. Ela ia com meu pai explorar as cavernas, mas não queria me levar lá pra dentro, parece que era meio perigoso. Mas eles sempre me contavam como era lá dentro, e tudo o que eles descreviam só me fazia ter ainda mais vontade de ir em uma. Então, um dia eu pedi para eles me levarem em uma, como presente de aniversário de dez anos.
- E...?
Por algum motivo estranho Tom começava a se sentir mais confortável ao falar com a voz estranha. Cada vez menos ela parecia rouca e animalizada. Na verdade, começava agora a ter um caráter mais macio, aveludado, mas sem deixar de ser monstruosa.
- Pare de ser sonso, você sabe muito bem porque eles não o levaram às cavernas naquele aniversário.
Essa era uma voz nova, feminina, isso é, se é que era possível que uma voz monstruosa fosse dividida em masculina e feminina.
- O que? Quem... quem está aí?
Tom começou a ficar nervoso novamente. Havia outra criatura estranha próxima dele, e isso não era bom, não era confortável.
- Não se preocupe, Tom, ela não vai te fazer mal, só quer ouvir sua história, assim como eu.
Era a primeira voz confirmando que realmente era "ela", o que não necessariamente deixava o garoto mais confortável.
- Eu só quero... sair daqui. Ir embora.
- Termine contar como terminaram as férias, Tom. Aposto que vai se sentir muito aliviado depois de desabafar.
A voz feminina parecia querer ouvir o resto da história. Tom não sabia como desabafar com criaturas estranhas o faria sentir-se aliviado, mas queria se livrar logo daquilo.
- Vocês sabem o que aconteceu naquele aniversário. Uma semana antes minha mãe ficou doente, e aí ela... foi tão rápido... em três dias...
Ele não conseguiu continuar. Pela primeira vez em anos uma lágrima escorreu pela morte da mãe. Ele nunca tinha chorado por ela, e no fundo se sentia culpado por isso. Sempre que via seu pai em prantos de saudade, achava que devia ser forte, firme, sóbrio para ampará-lo, mas agora começava a achar que a melhor forma de consolá-lo era chorar junto com ele.
Mas agora era tarde para isso.
- Ficamos naquela  casa por mais dois anos, mas meu pai ainda estava abatido demais para me levar a qualquer lugar, muito menos às cavernas, que lembravam tanto minha mãe.
Tom tentou não perder o fio da conversa ao mesmo tempo que secava as lágrimas.
- E então... depois desse tempo ele decidiu que deveríamos nos mudar para a cidade.
- E foi assim que você foi parar na porão?
Perguntou a voz feminina, que de repente estava não mais animalesca, mas humana, ainda rouca, mas ainda assim humana.
- É, basicamente sim.
Mas o que Tom realmente queria perguntar era porque as vozes daqueles dois mudavam a cada frase que trocavam com ele.
- E depois... quando você já estava finalizando as férias lendo com seu pai...
A voz masculina veio, pedindo para que ele continuasse. Dessa vez, parecia até familiar.
- Foi aí que um dia ele pegou uma espécie de resfriado. Foi ficando fraco... cada vez mais fraco. Ficou de cama. Eu... eu não fui para a escola, fiquei cuidando dele. Os vizinhos vinham de vez em quando, e o médico, com comida e remédios. Mas mesmo assim... a febre ia aumentando... e aí... bom, vocês sabem...
Esse último "sabem" quase não saiu. O nó na garganta se apertou mais ainda, mas dessa vez as lágrimas vieram à tona, todas de uma vez.
O garoto não precisou que as vozes lhe pedissem para continuar. Dessa vez, sentia necessidade de contar tudo até o final. Esperou que as lágrimas cessassem, tomou fôlego e seguiu.
- Depois que ele se foi eu desci até o porão com o que havia de comida na despensa. E fiquei por lá, lendo e lembrando... levei algumas fotos. Não sei quanto tempo fiquei por lá. Parece que foi ontem, ou há uma semana, ou há dez anos. Tanto faz o tempo. Mas não deve ter sido muito tempo, a comida não teria durado tanto.
- Você não saiu mais do porão?
A voz feminina pareceu se aproximar apressadamente enquanto falava, quase alarmada.
- Não tive vontade, fiquei por lá. Eu quase não comia, então a comida demorava para acabar, eu não precisava subir. Eu sei que se pedisse ajuda para os vizinhos eles me levariam para algum lugar, mas não valia a pena, eu estava aconchegado demais ali. Tinha um sofá com uma manta em que eu me deitava, me cobria e lia sem parar.
Silêncio. Dessa vez, porque não havia mais o que dizer.
- Você não se lembra do que aconteceu depois?
A voz feminina, dessa vez doce, musical, realmente próxima, preocupada e familiar perguntou tão perto que Tom teve a impressão de ouvir uma respiração.
- Acho que... talvez... acho que peguei uma gripe.
Ele não tinha certeza do que estava dizendo, tudo ficou meio nebuloso, não podia se lembrar do que aconteceu depois dessa gripe. Ele havia se deitado, dormido um pouco... mas depois sentiu-se fraco... não se lembrava de ter comido ou bebido, ou mesmo lido qualquer coisa depois disso. Se lembrava de cada vez dormir mais, cada vez mais fraco.
- Acho que já é o suficiente. Vamos levá-lo.
A voz masculina era definitivamente conhecida dessa vez. Talvez... não, seria possível?
- Sim, querido, já está na hora.
A voz doce e musical concordou, e uma forte luz branca iluminou tudo de repente, cegando Tom. Ele piscou várias vezes, mas sua visão estava bloqueada por manchas pretas e brancas. Aos poucos, tudo foi ficando menos nebuloso, até que ele pareceu vislumbrar um rosto. Um rosto de mulher, bem ali, não altura do seu próprio.
Era... gentil, familiar, conhecido. E um homem se aproximou e se agachou ao lado da mulher. Havia uma barba por fazer, um sorriso radiante.
Ele os conhecia de algum lugar... não se lembrava bem de onde.
Os dois ficaram de pé e a mulher lhe estendeu a mão. Tom não estava certo se deveria segurar ou não. Mas que opções tinha? Ele olhou em volta, mas não viu nada além do branco. Não havia uma rocha sob seu corpo, o som da água havia sumido.
Só o branco.
Tom estendeu a mão para a mulher, que o ajudou a se levantar.
O homem passou o braço sobre os ombros do garoto, a mulher, do outro lado, fez o mesmo.
Os três juntou começaram assim a andar.
- Para onde vamos?
- Para casa, sempre para casa.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Eu?

Eu que sou poetisa?
Eu que sou inspiração?
Eu de mim não sei nada
Quem sabe mesmo não sou eu

Quem é a flor?
Quem o espinho?
Como sabem eles se são um ou outro?
A verdade é que são um só


Capaz de machucar
Capaz de alegrar
Temendo sempre fazer o mal
Temendo sempre deslizar

E no final
A conclusão é sua
Dizer se fiz bem
Ou dizer se fiz mal

O que importa é que,
No que sei de mim
E é pouco o que sei de mim
Sei que farei o que achar melhor


Procurando esconder os espinhos 
Guarda-los seguros
E revelar somente a flor
Que mal não fará jamais


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A Caminhada

Um passo de cada vez
Um pé depois do outro
Sempre em frente

Há a opção de contornar as pessoas
Também a de ajudá-las
Ou de pisar sobre elas

Passo a passo se percorre o caminho
Um caminho que terminará quando você determinar
E que continuará se você quiser

Não há uma estrada certa a seguir
Você a levará para o lado que desejar
Direita, esquerda, voltar, seguir

Escolha a direção, a velocidade
Pode desviar dos perigos
E das oportunidades

Pode parar
Sentar
E não se levantar mais

E assim será até o fim
Talvez você desista no meio
Talvez pare porque não tem mais o que alcançar

É essa a eterna caminhada
A caminhada da existência
Da vida

domingo, 1 de janeiro de 2012

Ano Novo

E isso me lembra as pessoas que foram... e as que vieram
Todas importantes, todas inesquecíveis
Pensando em tudo que me deram
Entendo como são todas incríveis

Cada uma do seu jeito
Único, diferente
Sem precisar ser perfeito
Ensinando, aprendendo e mudando incessantemente

São pessoas que foram
E nem por isso as esqueci
Pessoas que conquistaram
Um lugar, bem aqui

Havia um menino... ele era magrinho, parecia um graveto. E baixo, menor que eu.
Mas às vezes parecia não ser tão magro... parecia ter uma cabeça enorme!
E às vezes... não parecia ser tão baixo, era muito alto.
Ele me ensinou a brincar, a pular e a correr.
Me ensinou a ouvir Cazuza... e a ler, e me incentivou a criar.
Ele acreditava em Deus... ou não?
Sempre caía no rio no caminho da coragem, mas nem por isso deixava de ser valente.
Enchia o saco com brincadeiras sem graça, e era quase um colecionador de bonés.
Adorava futebol, mas depois adorou o basquete.
Achava que Harry Potter era uma porcaria, "Só gosto a partir do quarto" ele dizia.
Um dia fizemos um campeonato de vale-tudo de inseto, prendendo várias espécies em um pote de plástico, até hoje não sei se o tatu-bolinha foi o vencedor porque era forte mesmo ou porque seu metabolismo era mais lento e por isso não morreu asfixiado como os outros.
Nós trocar figurinhas dos álbuns que colecionávamos e andar de pé sobre o trepa-trapa
Subíamos em uma árvore e passávamos dela para outra, além de subir em telhados, é claro.
Elaborávamos pequenas peças de teatro, e inventávamos novos componentes do jogo "pedra, papel, tesoura".
Um dia eu bati nele com um galho, e para me desculpar falei: "Mas era um galho fininho, não achei que fosse machucar".
Ele era o mágico... e o palhaço também.
E até agora ainda penso nele, por mais distante que esteja, pois foi inesquecível.

Havia uma menina... ela era alta e magríssima... Se bem que às vezes parecia mais gordinha ou baixinha. Não lembro bem se seu cabelo era preto, ou castanho claro, ou castanho escuro... ou loiro.
No começo não éramos tão amigas... eu achava que ela era muito mimada, mas depois descobri que isso não era bem verdade, e fizemos um clube.
Um clube de amigas para sempre... e eu sei que ele existe até hoje, pelo menos dentro de mim.
A gente tocava violino, e eu adorava o amendoim caramelado que a mãe dela fazia.
Descobri que gostava de abacaxi quando fui à casa dela.
E certa vez, jogando bingo, dei tanta sorte que todos os números que eu falava que iriam sair... saíam.
Ela desenhava... dançava... interpretava.
Todo mundo queria usar o giz especial que ela levava para a escola!
Ela foi o meu cavalo em uma das nossas brincadeiras, era tão divertido!
Era a mais divertida, engraçada... e pintora, com quadros espalhados pelas paredes do restaurante da mãe dela.

É ano novo, vida nova, dizem eles
Mas de nada adianta o novo se não tivermos no passado
Uma marca sincera daqueles
Que nos deram tanto enquanto estiveram ao nosso lado

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Areia

Grão
Grão sobre grão
Mais um grão
Milhares de grãos

De longe uma infinita massa lisa e ondulante de cores harmônicas
De perto um pequeno amontoado maciço e irregular

Formam-se dunas com o vento
Faz-se esculturas com as mãos
Deforma-se com a água
É marcada por qualquer rastro

Para depois se desfazer
Para depois ser transformado

Alicerces na areia não são firmes
Alicerces na areia afundam, entortam

Areia,
Fina ou Grossa
Macia ou Áspera
Mas sempre flexível

Flexível e destrutível
Delicada
Desleal

É a base errada
Não se pode construir nada em areia
Ou com areia

Num sopro, lá se vai tudo


Tinha uma Pedra no Caminho...

Cheguei à beira da estrada, uma estrada dessas que se estendem até a linha do horizonte, tão longe que não é possível ver seu fim e sem nenhuma ramificação em nenhuma das direções.
Olhei para um lado, olhei para o outro e então me sentei sobre uma grande rocha, um pouco menor que eu. Fiquei de pé sobre ela e tentei enxergar alguma coisa, mas a estrada simplesmente parecia se estender em ambas as direções sem fim, sem alternativas.



- Você não vai encontrar nada - disse alguém.
- Quem falou? - perguntei olhando em volta e não vendo ninguém.
- Eu.
Continuei procurando, dando voltas sobre a pedra e olhando para perto e para longe.
Nada.
Algum tempo se passou e ninguém mais falou. Eu me sentei sobre a pedra e fiquei olhando de um lado para o outro, tentando me decidir.
- Posso te dizer, não importa pra que lado você vá, não vai ser melhor de onde você veio.
Me assustei mais uma vez. Quem estava falando?
- Todo mundo tem essa reação quando começa a falar comigo, ninguém acredita, acham que estão loucos.
- Mas quem é você? - perguntei olhando em vão para todos os lados.
- Melhor não dizer, confie em mim, sei o que estou falando. E sei também que muitos passaram por essa estrada e ninguém jamais pareceu feliz.
- Vindo de que direção? - perguntei desistindo de descobrir de onde vinha a voz, pois ela parecia vir de todos os lados.
- Das duas.



Não era bem isso que eu esperava ouvir, afinal, eu queria ir para algum lugar.
- Uma vez passou um velho por aqui - disse a voz. - Ele parecia um tanto cansado, e andava muito devagar, acho que por causa das dores. O coitado não parava de dizer como sua vida tinha sido solitária e sofrida, e o pior é que falava sozinho, pois ninguém o estava acompanhando.
- Eu acho que sou eu quem está falando sozinho aqui - comentei.
- Bem, ele parou para descansar e eu perguntei porque estava tão infeliz - a voz continuou me ignorando completamente. - Aí ele disse que quando era jovem tinha fugido do amor de sua vida, e que dês de então não  tinha encontrado mais ninguém que o fizesse feliz. Estava terrivelmente arrependido.
Não respondi. Tive medo de responder. A voz continuou.
- E então eu perguntei por que ele tinha fugido e ele me disse que teve medo de se compromissar, de ficar preso, que achava melhor sair pelo mundo tentando encontrar seu caminho. E quando eu perguntei de que adiantava caminhar pelo mundo sem caminhar ao lado de alguém ele começou a chorar.
- Você acha que vai se arrepender? - disse a voz finalmente cortando o silêncio.
- Não sei.
Fêz-se silêncio mais uma vez. Olhei para um lado da estrada e não vi nada diferente, então olhei para o outro: a mesma coisa.




- Não quer mesmo me dizer quem você é? - perguntei.
- Se eu disser você vai achar que está louco.
- Já estou achando que estou louco - argumentei. - Ficaria menos perturbado se estivesse falando com uma pedra e soubesse que é uma pedra do que continuar achando que estou falando sozinho.
- Então pode se sentir confortável.
- Hein? Por quê?
- Porque você acertou.
- Acertei o quê?
- O que eu sou. Sou uma pedra. A pedra em que você está sentado, para ser mais exata.
Saltei de cima da pedra nesse exato instante.
- Eu disse que você ia achar que está louco - ela disse. - Pode ficar sentado, eu não me importo, não sinto nada.
Hesitei em um primeiro momento, mas em seguida me aproximei novamente da pedra. Muito cautelosamente, como se esperasse que ela pulasse para frente ou fizesse qualquer movimento inesperado.
Devagar, sentei-me sobre ela novamente.
- Ainda vai ficar aí olhando a estrada e tentando se decidir? - ela perguntou.
- O que mais posso fazer?
- Voltar - ela disse isso como se fosse a coisa mais simples e óbvia do mundo.
- Você não entende - falei meio triste.
- Não entendo mesmo - ela falou. - Se eu pudesse escolher escolheria voltar, mas a única coisa que posso fazer é continuar aqui, já que surgi aqui e não tenho lugar nenhum para ir ou para voltar. Fico aqui, dia e noite vendo as pessoas passarem, vendo as pessoas sofrerem. E sempre que eu tento ajudar, dizendo que estou aqui há milênios e que já viu mil e uma pessoas passando pela mesma situação, ninguém me ouve.
Não respondi.
Fiquei pensando naquilo. A experiência de uma pedra...




- Deve ser difícil pra você - falei por fim.
- Você nem imagina.
- Acho que vou te fazer um favor.
- O quê? Me dar vida para que eu possa sair daqui e fazer algo útil?
- Se eu pudesse faria isso, mas é outra coisa - expliquei. - Vou seguir seu conselho.
Ela não disse nada. Simplesmente nada.
- Pedra? - perguntei. - Pedra você ouviu o que eu disse?
Nada. Nem um suspiro, nem um mísero ruído como resposta. Desci da pedra e a rodeei.
- Pedra?! - arrisquei uns soquinhos. - Você está aí?! Ei! Está me ouvindo?!
Não insisti. Por um instante entrei numa confusão inexplicável, sem saber se eu realmente havia chegado a conversar com aquele monte de minérios solidificados. E então me virei de volta para a direção de onde eu tinha vindo. A pedra estava certa no final das contas, eu tinha muito a perder de onde tinha vindo, não valia a pena arriscar.
Timidamente, virei a cabeça para olhá-la, solitária, imóvel na beira de uma estrada que levava do nada a lugar nenhum.




- Obrigado - disse por fim e segui meu caminho, sem nunca saber o que aconteceu com ela depois disso.
Às vezes a gente não precisa de uma pedra no meio do caminho para nos impedir de continuar, apenas de uma com um bom conselho que te faça seguir o rumo certo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sobre Gênios e Loucos


Qual a diferença entre um gênio em um louco? Uma coisa é certa: nem todo o gênio é louco, e nem todo louco é gênio. E outra coisa é ainda mais certa: os únicos que mudam o mundo são os que são tanto gênios quanto loucos.

Louco: é aquele que não se encaixa. Alguém que não pertence à sociedade por não agir como ela, por se destacar dela.

Gênio: é aquele que não se encaixa. Alguém que não pertence à sociedade por não agir como ela, por se destacar dela.

Um se destaca por insanidade mental, outro por alta capacidade cognitiva.
O que acontece é que insanidade não serve de nada sozinha, na verdade, só atrapalha. E a inteligência, bem... te ajuda a passar nas provas de final de ano e no vestibular.

Mas... imagine-se num laboratório. Em uma mão você tem o frasco da inteligência, na outra o da loucura. E aí você despeja os dois num caldeirão efervescente.
Saem do caldeirão grandes nomes do passado... e tantos outros. Muitos desconhecidos, que só não mudaram o mundo porque não tiveram oportunidade.

Gênios são gênios e loucos são loucos. Mas Gênios louco, ou loucos gênios, esses mudam o mundo.

Simplesmente porque carregam a mais poderosa de todas as misturas em seu sangue (ou em sua mente): a capacidade de sonhar, de inovar, de ser um visionário e acreditar em inovações que todos acham loucuras... e a inteligência que vai dar forma às ideias, além da coragem para desafiar o mundo e executá-las.


São os que fazem perguntas nunca feitas antes.
Os que questionam afirmações que ninguém jamais ousou questionar.
Aqueles que sabem que estão certos, e, se não têm certeza disso, procuram desafiar a si mesmos a provar que estão.
E se no fim chegarem à conclusão de que estavam errados, procuram descobrir porquê, até que chegam a uma conclusão brilhante.

Esses são os que mudam o mundo.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Coelho na Nuvem

Certa vez, havia um coelho sentado em uma nuvem. Uma estrela sorridente, vendo que ele parecia triste, aproximou-se e perguntou:
- O que faz aqui em cima, coelho?
- Nada - o orelhudo respondeu tristonho.
- E está triste por quê?
- Porque fugi de casa.
Um silêncio mórbido se instalou por alguns segundos até que a estrela finalmente falou de novo:
- Você subiu aqui em cima para fugir de casa?
- É.
- E está triste por causa disso?
- É
- Mas por quê?
- Porque me arrependi.
A estrela olhou o coelho de cima a baixo. Era um coelho novinho, de pelo cor de caramelo, muito bonito, mas triste com as costas encurvadas e as orelhas caídas. Estava sentado naquela nuvem como se alguém o tivesse pego pelas orelhas, girado e lançado ali em cima.
- Então por que não volta? - a estrela perguntou.
Silêncio. O coelho suspirou profundamente até que por fim explicou:
- Tenho vergonha.
- Vergonha de se arrepender?
- Vergonha de pedir desculpas.
A estrela o olhou mais uma vez, como se assim pudesse descobrir o que tinha feito aquele coelho fugir de casa.
- Bom - disse ela. - Ou você volta e pede desculpas, ou fica aqui para todo o sempre, arrependido e com esse sentimento terrível.
- Você tem razão - concordou o coelho, mas não fez nada além disso.
A estrela, vendo que o animalzinho não ia se mexer tão cedo, fez a pergunta que não queria calar:
- E como você veio parar aqui em cima?
- É que eu estava com muita raiva. Tanta raiva mas tanta raiva que dei um salto do tamanho do mundo e caí aqui. No começo fiquei feliz, achei muito legal, mas depois de um tempo comecei a me sentir sozinho e lembrei da companhia que meus irmãos me faziam. Aí fiquei com frio e lembrei de quando meu pai ia no quarto à noite e me cobria com uma coberta quentinha. E quando fiquei com fome e com sono me lembrei da deliciosa sopa de cenouras que a mamãe faz, e das lindas histórias que ela conta na hora de dormir.
Fêz-se silêncio mais uma vez. Um silêncio depressivo.
- Sinto saudades - o coelho concluiu. - Quero voltar, mas não consigo descer daqui.
Imediatamente a estrela brilhou ainda mais e alargou o sorriso.
- Eu te ajudo! Suba nas minhas costas que eu te levo de volta até lá embaixo.
O coelho aceitou a ajuda e subiu nas costas da estrela. Eles desceram rapidamente de volta à terra e o coelho pôde assim voltar para sua casa.

A estrela e o coelho ficaram amigos desde esse dia, vivendo felizes junto de suas famílias e visitando um ao outro sempre que podiam. O coelho nunca mais tentou fugir de casa.
E se eles não morreram, vivem felizes até hoje.